Sobre pescadores, tubarões e a Travessa Zé Manduca

Todas as cidades têm que nascer de alguma forma, elas não brotam do chão, espontaneamente. Da mesma forma acontece com aquelas que nascem aos pés do mar e se desenvolvem sendo ninadas pelo seu braço. Instintivamente, os cílios dos seus filhos se abrem ao serem tocados pelos primeiros raios de sol. Te convido a voltarmos ao ano de 2012, em que um pescador me levou até 1888. Na memória das histórias que escutou, 88 foi um tempo de árido, de fuga para o acalento do sofrimento das terras rachadas. Fortaleza, trilha certa para quem quisesse escapar de uma das piores secas do Ceará. Foram tempos difíceis. Ter um lugar para morar e alguma comida, bastava para quem fugia do calor e da escassez. O destino de seu Antônio Marques foi a capital cearense, porém na mesma caminhada estava José Sampaio, que conhecia um lugar ainda não habitado, antes de Fortaleza e para o qual estava levando sua família, para tentar sobrevivência na região. José sugeriu: “Tem um lugar ali na praia que tem um curral, só tem um canteiro, num tem mais nada, não”. Ao dizer a frase acima, mal sabia ele que estava contribuindo para o recomeço de uma vida e o nascimento de uma cidade e da sua tradição pesqueira.

Quem contou a história é José Marques (Zé Manduca, para os conhecidos), na época, com 83, bisneto de Antônio Marques. Para os que dizem que há males que vem para o bem, a “seca dos três oitos” fez com que a família Marques se estabelecesse e ajudasse na construção da história de uma das mais belas praias turísticas do Ceará. Ao escrever seu destino, seu Antônio passou a edificar, também, a história da pequena Taíba, distrito de São Gonçalo do Amarante, há 59 quilômetros de distância de Fortaleza. “Criou a família dele aqui, os filhos, e os filhos dele tiveram filhos neste chão! Eu nasci aqui… vou morrer agora no fim do mundo”, contou seu José, fazendo piada com a ideia de que o mundo acabaria no final do ano de 2012, segundo a lenda Maia, incrementada com uma onda gigante. “Meu bisavô foi pescador, meu avô, meu pai… Eu também fui, comecei a pescar com 12 anos. Fiz jangadas, já pesquei no mar, de curral”. Na pesca de curral é feita uma “armadilha” com varas e arames, os peixes entram e, na vazante da maré, permanecem presos. Naquele tempo, o já aposentado pescador, apenas contava seus causos, que eram muitos.

Se pudéssemos nos basear pelas histórias de seu Zé Manduca, chegaríamos à conclusão de que a vida na água é bem mais interessante do que em terra firme. Se verdadeiras ou não, ele mesmo brincou quando lhe pedi que contasse alguma das suas formidáveis façanhas no mar. “… E quem acredita em história de pescador?”, brincou. “Para você ter uma ideia, quando meu bisavô veio morar aqui, só tinha a casa dele, depois apareceram mais quatro casas, eles vieram tudo da Baleia.”, afirmou, olhando a rua asfaltada, os carros que passavam e a gringalhada que parecia ter conhecido a cidade como os parentes dele, que se apaixonaram, fizeram morada, se estabeleceram e pareciam acostumados com a calmaria ainda presente. Ele voltou os olhos para dentro de casa e continuou: “O lugar cresceu, começou a chegar gente de fora. Tá aí essa cidade, apareceu gente rica.” E quando pareceu se lembrar de algum fato que lhe ocorreu dentro do mar, contou, saudosista: “Eu só saía para pescar com meu pai, aprendi tudo com ele. Uma vez o barco do meu tio virou e só o encontraram depois de três dias lá nas Flexeiras. Comigo nunca aconteceu. Teve uma noite que fiquei com medo de levar uma virada do vento, mas graças a Deus não aconteceu nada. O que eu mais vi e que tenho medo no mar é tubarão, vi um que era maior que o paquete, tinha quase 15 metros”, contou. “Meu Deus do céu, se eu sair dessa, nunca mais piso aqui, e fui para outros cantos, para lá, de novo, não.”

Outro medo pertinente na vida de pescador é navio, principalmente quando se sai sem luz para pescar à noite. O receio, no mar, se resume a navios grandes e tubarões. Pescadores são pessoas corajosas, conclui-se.

Quem passa mais tempo no mar do que em casa, traz na pele os sinais, parece haver uma ligação tão grande com o oceano quanto com a própria família. O dia começa lento, mas logo adiante será substituído pelos gritos de: “Água na vela!”, ou pelos braços fortes que retiram as madeiras que ajudam a segurar os barcos para não irem pra o mar antes do esperado. O único medo que esses bravos homens têm é de tubarão. E todos concordam que a vida no mar é muito melhor do que a que passamos com os pés firmes na terra. Ser pescador não é tarefa árdua para quem cresceu e aprendeu tudo que sabe banhado pelo mar.

Alguns anos depois, pedi para que a minha rua, ainda sem nome, pudesse trazer a lembrança eterna daquele pescador que tanto me ensinou. A Travessa em que seu Zé Manduca cultivava suas plantinhas, enquanto contava histórias, merece receber o seu nome. A Câmara Municipal de São Gonçalo do Amarante, através da Vereadora Elsa Rodrigues (PRTB) está se movimentando para que ele receba esta merecida homenagem para continuar contando história.

A pequena Taíba, antigamente aldeia de pescadores, hoje é praia turística visitada por pessoas do mundo todo, mas continua sendo confessionário de uma história que se repente e que parece eternamente passada de pai para filho, como uma herança do tempo, como uma história que se escreve nas areias brancas e se calcifica para as próximas gerações.

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